Os Sonhos e um Sistema
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| Minha avó voltou sua atenção para minha escolarização! |
Ao recordar a minha formação escolar até o presente momento, me reporto sem dúvida alguma aos primeiros anos escolares: final da década de sessenta e início da década de setenta, em plena ditadura militar. Morava com minha família e por ser nesta época, a única criança e também a única filha de uma “Normalista” recém-formada que cursava a Faculdade de Ciências Biológicas, eu já estava acostumada com muitas histórias contadas pelos meus pais, pelas tias e meus avós, eu era realmente uma criança feliz, com os meus sete anos sabia o nome das cores, contar numerais em português até o vinte corretamente e até em inglês igualmente, também sabia reconhecer muitas outras letras.
Os livros foram algo muito presente na minha vida e estavam constantemente nas mãos dos mais velhos naquele casarão, posto que meu avô apesar de não contar com estudo algum, de ser extremamente severo e sistemático, sempre fez questão de oferecer estudo para todos seus nove filhos. Fora mandando-os, cada um a sua vez, para colégios internos na tentativa de oferecer-lhes o melhor, porém para seu descontentamento somente as mulheres acabaram por concluí-los, voltando para casa, os seus quatro filhos (todos os homens), que acabaram nos serviços da lavoura de café.
Nesta época, minha mãe já lecionava, mas justo quando iniciei os meus primeiros anos escolares, ela também iniciou a sua Faculdade e todo o seu tempo acabou tomado pelas suas atividades, ministrando aulas no decorrer do dia e estudando a noite. Entretanto, eu podia contar com as minhas tias também formadas e com a minha avó, que voltou toda sua atenção para a minha escolarização, meu pai neste período tomava conta de uma farmácia, e assim eu me acostumei na casa dos avós.
Acabei frequentando uma escola na minha cidade mesmo, uma escola do governo, o que para mim foi melhor do que esperava, pois tinha muito medo de ser uma interna em colégios de freiras. Era levada à escola pela minha avó, todos os dias e estava no primeiro ano escolar, onde toda mordomia que tinha em casa acabava assim que adentrava os portões altos da Escola Estadual Profº Uzenir Coelho Zeitune na cidade de Votuporanga, interior do estado de São Paulo.
Como os costumes da época não nos davam direito a questionamentos, a educação acontecia de maneira comum, meninos e meninas estudavam então em uma mesma classe, sendo a separação quanto ao sexo realizada pela própria professora, dentro da mesma. Mas, antes de irmos para as nossas salas, nos dirigíamos até o pátio central e em fileiras, nos distanciávamos corretamente uns dos outros, nos colocávamo-nos de maneira correta, em sentido de respeito para o cântico do Hino Nacional Brasileiro, o que eu não sabia e também não perguntava por achá-lo muito complicado e longo demais, entretanto com o passar dos olhos rígidos e contraídos da professora, o medo me obrigava a mexer os lábios num “faz de conta”, conseguindo soltar o som somente no final de algumas palavras.
Em sala pronta para a alfabetização, o sistema adotado fora o da Cartilha Caminho Suave, de Branca Alves de Lima, cujo procedimento aconteceu através de memorização e associação das letras às imagens, uma abordagem estruturalista que previa a aquisição da língua por meio da imitação e construção de hábitos, de modelos estabelecidos, no qual o ensino da Língua Portuguesa não focava a interação, tempo este que não se falava em linguística da enunciação. Senti-me perdida neste mundo sem sonhos, sem as palavras cheias de encantamento das leituras de minha mãe ou das minhas tias, das historinhas contadas pela minha avó ao ensinar a formação das palavras ligando as letras como se fosse uma cirandinha, bem no final de um caderno improvisado (o de receitas). O mundo que contei tanto nos dedos para começar tornou-se um horror, a partir do momento que senti o peso desse sistema sem luz, distante da interatividade e da abordagem dialógica. Não me lembro do rosto da minha professora do primeiro ano e tampouco do seu nome, ela tornou-se a bruxa má dos livros guardados no casarão dos meus avós.
Reflito muito sobre minha docência para não concorrer com o mesmo equívoco praticado por tantos “professores” e busco constantemente em estudos, o complemento para minha total assimilação e incorporação como educadora comprometida com o saber e preocupada em como transmiti-lo.
“Toda palavra (todo signo) de um texto conduz para fora dos limites desse texto. A compreensão é o cortejo de um texto com outros textos”, (BAKTHIN, 1992 – p.404).
Cristina Ap Nicoletti

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